A noção de Amor é
estrutural. Nas músicas, nos filmes e predominantemente no senso-comum da vaga
categoria a que referimos como ocidente. Talvez pensar em termo de sociedades
judaico-cristãs fosse mais adequado, embora não menos vago.
Quando digo que o amor é estrutura não tenho
por intenção dizer que ele não existe, ou que se trata de um mito. Muito antes
pelo contrário, atento ao fato de que ele existe. Porém existe em suas práticas
e não em uma essência. Existe em práticas sociais e nos valores compartilhados
que o sustentam.
No nosso cotidiano quase tudo se torna
justificável em termos de amor. É o amor que mexe com minha cabeça e me deixa
assim. O amor me deixa assim, me
compele a estar assim. Permite-nos cometer uma categoria especial de crimes –
os passionais. Entre outros milhares que poderíamos tirar das canções populares
e do cotidiano, fica mais claro em que dimensão considero o amor estrutura.
Contudo, caracterizado dessa forma não fica exposto o problema que enxergo
nisso tudo.
Do modo como vejo, o amor construído enquanto
estrutura carrega consigo uma série de valores que são bastante importantes
para as sociedades ocidentais, que ajudam a caracterizá-las. Não se trata de
qualquer amor, ou das variações várias para o que se pode chamar de amor.
Trata-se de um conceito que carrega consigo um ludismo, um misticismo, uma
mitologia, e se configura como fundamental para as pessoas.
All you need is love. I will always love you. I just called to say I
love you. Todos esses exemplos de
cultura popular carregam consigo uma poética afim. Das tradicionais histórias
dos contos de fada, aos conservadores livros contemporâneos de Stephanie Meyer,
impera um ideal de amor. O amor enquanto estrutura é sempre ideal. Está num
plano virtual, que é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente.
Digo mais! É querer estar preso por vontade e é servir a quem vence, o
vencedor.É ter com quem nos mata,
lealdade. O que não fica tão claro, com Zezé di Camargo ou Camões é que esse
amor ideal tem pressupostos, e paródias, que na maior parte das vezes não são
subversivos, pelo contrário, fazem afirmar suas características excludentes.
Excludentes sim. I hope you don’t mind that I
put that in words: ingênuo aquele que acredita na pieguice que o amor dispensa
a necessidade de dinheiro, de explicação. I wish I
could give the world to you, but love is all I have to give. O ponto central e problemático do amor enquanto
estrutura é que ele traz pressupostos de um amor ideal e legitima a entrega da
agência a uma passividade justificada.
Esse amor ideal é heterossexual.
When a man loves a woman! Sim, afinal príncipes e princesas no escopo político de uma monarquia
simbólica, são homem e mulher, masculino e feminina, heterossexuais. É
sintomático que o contexto pós-medieval ainda seja tão relevante nas nossas
histórias de amor. Ainda que bem adaptados, digamos, se uma princesa passa a
ser uma menina comum em dúvida entre um vampiro e um lobisomem. Vale, vale
tudo. Vale o que vier. Vale o que quiser. Isto é, vale quase tudo. Só não vale
dançar homem com homem, nem mulher com mulher
Esse amor ideal é heteronormativo.
Não meramente heterossexual, a noção de
entrega, do esforço supremo pelo amor perpassa pela agência de um dos amantes e
a passividade do outro. A agência masculina e a passividade feminina. A
princesa na torre, a espera de um príncipe, corajoso, forte, másculo. Por isso
digo que ainda que não heterossexual, frequentemente a noção de amor abriga a
bipolaridade de agência e passividade, com dois papeis de gênero bem definidos.
Preconizo o amor de casal, mas pobre da mãe que não tem o instintivo,
avassalador e protetor amor materno. O amor tem preconceito de gênero.
Esse amor ideal é monogâmico.
O amor ideal parece ser uma combinação que só é
possível em pares. O que me leva a pensar imediatamente na sua necessidade de
ser binário entre ativo e passivo. Talvez esse seja o exemplo mais importante
para se compreender o caráter normativo do amor enquanto estrutura. Quando se
ama mais de uma pessoa é provável que não seja amor. Valeu, muito obrigado, mas
agora eu virei puta. E como se diz, putas não amam. Ou aquele velho discurso
machista do marido infiel para quem o que o corpo faz, a alma perdoa. Paixão
com várias pessoas, amor com uma só.
Isso demonstra pra mim de maneira clara que a
noção de amor estrutural e contemporânea é um pacote de regras sobre um
comportamento ideal. De maneiras indiretas ou às vezes bem diretas, o amor
ensina a ser monogâmico, heterossexual, heteronormativo. Moralmente elogiável.
Príncipe, branco, lindo, corajoso e másculo – de preferência rico. Princesa,
feminina, recatada, a esperar seu verdadeiro e único amor. Sou diferente dos
Beatles, money can't buy me love. O amor é que não me compra, para o resto
estou aberto a negociações.
Longe um do outroA vida é toda erradaO homem não se importaCom a roupa amarrotadaE a mulher insisteE quantas vezes choraA força da paixão de um grande amor que foi embora.
Esse refrão carregado de preconceitos, binarismos e papeis de gênero é
elucidativo. Foi escrito por Zezé de Camargo, que não nos deixa dúvida: é o
amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário