domingo, 17 de março de 2013

É o amor (que mexe com minha cabeça e me deixa assim)



                A noção de Amor é estrutural. Nas músicas, nos filmes e predominantemente no senso-comum da vaga categoria a que referimos como ocidente. Talvez pensar em termo de sociedades judaico-cristãs fosse mais adequado, embora não menos vago.
Quando digo que o amor é estrutura não tenho por intenção dizer que ele não existe, ou que se trata de um mito. Muito antes pelo contrário, atento ao fato de que ele existe. Porém existe em suas práticas e não em uma essência. Existe em práticas sociais e nos valores compartilhados que o sustentam.
No nosso cotidiano quase tudo se torna justificável em termos de amor. É o amor que mexe com minha cabeça e me deixa assim. O amor me deixa assim, me compele a estar assim. Permite-nos cometer uma categoria especial de crimes – os passionais. Entre outros milhares que poderíamos tirar das canções populares e do cotidiano, fica mais claro em que dimensão considero o amor estrutura. Contudo, caracterizado dessa forma não fica exposto o problema que enxergo nisso tudo.
Do modo como vejo, o amor construído enquanto estrutura carrega consigo uma série de valores que são bastante importantes para as sociedades ocidentais, que ajudam a caracterizá-las. Não se trata de qualquer amor, ou das variações várias para o que se pode chamar de amor. Trata-se de um conceito que carrega consigo um ludismo, um misticismo, uma mitologia, e se configura como fundamental para as pessoas.
All you need is love. I will always love you. I just called to say I love you. Todos esses exemplos de cultura popular carregam consigo uma poética afim. Das tradicionais histórias dos contos de fada, aos conservadores livros contemporâneos de Stephanie Meyer, impera um ideal de amor. O amor enquanto estrutura é sempre ideal. Está num plano virtual, que é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente. Digo mais! É querer estar preso por vontade e é servir a quem vence, o vencedor.É  ter com quem nos mata, lealdade. O que não fica tão claro, com Zezé di Camargo ou Camões é que esse amor ideal tem pressupostos, e paródias, que na maior parte das vezes não são subversivos, pelo contrário, fazem afirmar suas características excludentes.
Excludentes sim. I hope you don’t mind that I put that in words: ingênuo aquele que acredita na pieguice que o amor dispensa a necessidade de dinheiro, de explicação. I wish I could give the world to you, but love is all I have to give. O ponto central e problemático do amor enquanto estrutura é que ele traz pressupostos de um amor ideal e legitima a entrega da agência a uma passividade justificada.
Esse amor ideal é heterossexual.
When a man loves a woman! Sim, afinal príncipes e princesas no escopo político de uma monarquia simbólica, são homem e mulher, masculino e feminina, heterossexuais. É sintomático que o contexto pós-medieval ainda seja tão relevante nas nossas histórias de amor. Ainda que bem adaptados, digamos, se uma princesa passa a ser uma menina comum em dúvida entre um vampiro e um lobisomem. Vale, vale tudo. Vale o que vier. Vale o que quiser. Isto é, vale quase tudo. Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher
Esse amor ideal é heteronormativo.
Não meramente heterossexual, a noção de entrega, do esforço supremo pelo amor perpassa pela agência de um dos amantes e a passividade do outro. A agência masculina e a passividade feminina. A princesa na torre, a espera de um príncipe, corajoso, forte, másculo. Por isso digo que ainda que não heterossexual, frequentemente a noção de amor abriga a bipolaridade de agência e passividade, com dois papeis de gênero bem definidos. Preconizo o amor de casal, mas pobre da mãe que não tem o instintivo, avassalador e protetor amor materno. O amor tem preconceito de gênero.
Esse amor ideal é monogâmico.
O amor ideal parece ser uma combinação que só é possível em pares. O que me leva a pensar imediatamente na sua necessidade de ser binário entre ativo e passivo. Talvez esse seja o exemplo mais importante para se compreender o caráter normativo do amor enquanto estrutura. Quando se ama mais de uma pessoa é provável que não seja amor. Valeu, muito obrigado, mas agora eu virei puta. E como se diz, putas não amam. Ou aquele velho discurso machista do marido infiel para quem o que o corpo faz, a alma perdoa. Paixão com várias pessoas, amor com uma só.
Isso demonstra pra mim de maneira clara que a noção de amor estrutural e contemporânea é um pacote de regras sobre um comportamento ideal. De maneiras indiretas ou às vezes bem diretas, o amor ensina a ser monogâmico, heterossexual, heteronormativo. Moralmente elogiável. Príncipe, branco, lindo, corajoso e másculo – de preferência rico. Princesa, feminina, recatada, a esperar seu verdadeiro e único amor. Sou diferente dos Beatles, money can't buy me love. O amor é que não me compra, para o resto estou aberto a negociações. 


Longe um do outro
A vida é toda errada
O homem não se importa
Com a roupa amarrotada
E a mulher insiste
E quantas vezes chora
A força da paixão de um grande amor que foi embora.


Esse refrão carregado de preconceitos, binarismos e papeis de gênero é elucidativo. Foi escrito por Zezé de Camargo, que não nos deixa dúvida: é o amor.

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